AITARÉ DA PRAIA – Gentil Roiz, Ary Severo (1925)

SINOPSE:

Neste filme basilar do cinema silencioso brasileiro, produzido na segunda década do século XX, na cidade de Recife, Aitaré é pescador de uma pequena vila e namora escondido a jovem Cora. Questões familiares, preconceito étnico e intrigas do passado envolvem a paixão do casal em dramas e proibições. Um dia, uma tempestade traz, arrastados pelo mar, um rico coronel e sua filha, que são salvos por Aitaré. Este episódio vai abalar o amor do jovem casal e levará Aitaré em uma viagem rumo à modernidade.

RESENHA:

Aitaré da Praia (1925), de Gentil Roiz, integra a tradição de filmes brasileiros que começam no mar. Desde a primeira imagem, a superfície das águas tocadas pela luz é o prenúncio de uma narrativa ritmada pelo vai e vem das marés. Ao longo do filme, o mar constitui uma paisagem – da qual também pertencem o vento, a areia e a flora praiana do nordeste brasileiro -, que emoldura a sensualidade do amor de um jovem casal. Na recorrência das ondas que explodem na pedra, do vento que acaricia as folhas das palmeiras, as velas dos barcos e a saia longa de Cora, todas as imagens estão carregadas de libido: o amor é um chamado da natureza. Já o conservadorismo familiar faz o contraponto: na pequena aldeia de pescadores, os valores tradicionais calcados na origem étnica e na função social interditam a paixão juvenil. Mas as ondas do mar trazem a mudança. 

Aitaré da Praia integra o chamado Ciclo do Recife, período de intensa produção cinematográfica na capital pernambucana, nordeste do Brasil, entre os anos 1923 e 1931. Nesse início de século a modernidade chega ao país na velocidade do trem. Recife, importante cidade portuária do nordeste que vê aos poucos o poder político migrar para Rio de Janeiro e São Paulo, capitais do Centro-Sul do Brasil neste período, não quer ficar para trás e busca no cinema o seu espelho moderno. Caso emblemático deste ambiente de redefinições históricas é o filme Veneza Americana, também de 1925, dirigido por Ugo Falangola e J. Cambieri, que faz um retrato da cidade sob o signo do projeto de urbanização de seu território central, com foco especial na construção do novo cais. 

Este desejo de modernidade une os cinéfilos Edson Chagas, Gentil Roiz e Ary Severo. fundam em 1923 a Aurora Film, produtora cinematográfica que realizaria 13 longas-metragens até a chegada do cinema de som sincrônico nas salas de cinema brasileiras. Por meio de uma encenação melodramática e sequências de ação frenéticas inspiradas nos filmes norte-americanos, esses cineastas diletantes viam no cinema a locomotiva que levaria a sociedade recifense do arcaico ao moderno. 

De fato, é o que faz o filme de Roiz com o personagem Aitaré: a chegada da burguesia a sua pequena aldeia engendra uma sequência de intrigas amorosas que o levam diretamente aos braços da grande cidade. Apesar da migração do personagem principal acontecer apenas nos últimos cinco minutos do filme, o contraste entre a paisagem praiana, que conta o tempo pelo fluxo da maré, para a cidade dos bondes e do relógio é evidente. Logo na chegada uma pequena multidão anônima de rostos urbanos apontam a aparência rural de Aitaré. A cartela anuncia a elipse: cinco anos se passam, e o pescador já está integrado à grande cidade de Recife. É apenas nesta cidade moderna, sonhada pela câmera de seus cineastas, que o amor interditado pelo arcaísmo rural pode se realizar.

Texto por Juliana Costa

Sobre los directores

Gentil Roiz (Canguaretama, 1899 – Río de Janeiro, 1975) fue orfebre y grabador. En 1923 fundó con Edson Chagas la Aurora Filme, primera productora de Pernambuco, y dirigió Retribuição (1924), el primer filme del Ciclo do Recife. Ary Severo (Recife, 1903 – 1994), nombre artístico de Luiz de França da Rosa Torreão, fue actor, director y productor. Aquí interpreta a Aitaré y coescribió el guion. Biografía completa.

Ver la película

Ver en la Cinemateca Pernambucana Jota Soares (60 min). También hay una versión con subtítulos en inglés.

Mapeada por Esmeralda Reynoth y Juliana Costa

Fuentes

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