Sinopsis
Paseo a Playa Ancha (Maurice Massonnier, 1903, 3 min)
Em 1902, o francês Maurice Massonnier pisou em terras chilenas com um cinematógrafo e o intuíto de apresentar ao público latino-americano as filmagens que vinham sendo realizadas e exibidas na Europa, tanto pelos irmãos Lumière e quanto por outros entusiastas da nova tecnologia. Com o sucesso das sessões no Chile, o empresário decide filmar em Valparaíso o que ele entendia como uma festa local, ensaiada e planejada por ele próprio em cinco atos: 1º Chegada do Sr, Rodríguez a cavalo; 2˚ Zamacueca dançada pelo mesmo e vários outros casais; 3˚ Uma valsa; 4˚ Uma confusão, tapas, socos, etc.; 5˚ Almoço campestre ao ar livre. Filmado, revelado e exibido no mês de janeiro de 1903, Paseo a Playa Ancha é considerado hoje o filme chileno mais antigo que sobreviveu ao tempo, sendo a atual cópia digital disponível uma restauração feita pela Cineteca Nacional de Chile em 2017.
Resenha
Quando o empresário Maurice Massonnier desembarca no Chile em 1902 com seu cinematógrafo e uma coleção de filmes para serem exibidos para o público local sua ambição era pouco, ou nada, artística e principalmente vinculada a exploração comercial dos artefatos cinematográficos enquanto uma curiosidade científica. Muito se discute sobre o marco inaugural da história do cinema, quando ele de fato se separou de uma investigação dos efeitos ópticos e se tornou uma forma artística independente. A invenção dos irmãos Lumière e seus filmes são debatidos, estudados, revisitados dentro dessa perspectiva já há muitos anos sem consenso. Longe de ser um debate desprezível e sem interesse, a busca por uma separação completa entre a história do cinema, ou um mesmo a história da arte, e motivações “mais baixas”, como o entretenimento popular ou os interesses comerciais, só pode acontecer no mundo conceitual, pois as teias que tecem a história da humanidade são muito mais complexas.
Paseo a Playa Ancha certamente pertence a esse momento enevoado, no qual o conceito de cinema ainda não tinha contornos claros e as filmagens feitas com cinematógrafo eram extremamente variadas: desde documentação de procedimentos cirúrgicos, registros burocráticos, retratos de cenas de famílias abastadas e até encenações de pequenas esquetes de comédia para o entretenimento de um público que já começava a se acostumar em pagar para se sentar em uma sala escura e ver imagens em movimento.
Entre um documentário de costumes e uma ficção, o filme de Massonnier guarda uma espontaneidade, ou desorganização, que o distingue das famosas vistas dos irmãos Lumière: sempre marcadas por uma composição muito planejada, na qual os movimentos mais orgânicos ou acidentais acabam apenas por adicionar graciosidade e não romper com o enquadramento. Dividido em cinco atos com durações diferentes, onde o começo e o fim são nebulosos e os cortes parecem arbitrários, Paseo a Playa Ancha, não pode ser confundido com um filme dos Lumière, apesar de feito com a mesma máquina. A presença do equipamento cinematográfico é clara na organização da filmagem, mas as movimentações dos atores, mesmo que guardem em si um grau de planejamento, parecem fugir do controle do metteur en scène em diversos momentos. O fato do letreiro com informações sobre o dia e local da filmagem estar cortado pela metade mostra que de fato houve uma distância entre as ideias e a execução do filme.
Com uma cobertura extensa da imprensa local, a filmagem de Massonnier em Valparaíso foi um evento em si, mas talvez a maior contribuição do francês para a história do cinema latino-americano tenha sido, em grande parte, obra do acaso. Sua filmagem não foi a primeira em solo chileno, mas foi uma das poucas que resistiu ao tempo. Um rolo encontrado em 1990, na França, pelo pesquisador Daniel Sandoval, possibilitou o restauro da Cineteca Nacional de Chile em 2017 e hoje Paseo a Playa Ancha é um testemunho ainda vivo e visual das origens do cinema no neste continente.
Texto por Roberta Pedrosa
Mapeada por Aaron Cutler, Pavel Nathaniel González Medrano, Roberta Pedrosa, Samuel Caraballo
Sobre el director
Maurice Albert Massonnier, citado también como Maurice Saturnin Massonnier, fue un exhibidor y camarógrafo francés que llegó a Chile hacia 1902 con un aparato Lumière. Se instaló en Valparaíso, donde fundó la Empresa Massonnier y Cía. (Biógrafo Lumière). Se desconocen sus fechas de nacimiento y muerte. Biografía completa.
Ver la película
Ver en la Cineteca Nacional de Chile (en línea) (2 min, restauración de 2017).